Um relatório divulgado em Paris pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) ressaltou o impacto significativo das áreas protegidas sob sua supervisão na preservação ambiental e no bem-estar das populações, colocando em evidência tanto os benefícios ecológicos quanto sociais destes territórios em escala global.
No Brasil, a lista de áreas protegidas inclui o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco na 46ª sessão do Comitê do Patrimônio Mundial, realizada em Nova Délhi, Índia, em julho de 2024, além do Parque Nacional do Iguaçu, que integra o rol do Patrimônio Mundial da Unesco desde 1986.
Conforme informações da Organização, a região dos Lençóis Maranhenses possui uma biodiversidade notável, com mais de duas mil espécies de plantas, cerca de 400 espécies de aves, aproximadamente 80 espécies de mamíferos e uma grande diversidade de invertebrados. Dados do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima indicam que nesta área existem quatro espécies ameaçadas de extinção: guará (Eudocimus ruber), lontra-neotropical (Lontra longicaudis), gato-do-mato (Leopardus tigrinus) e peixe-boi-marinho (Trichechus manatus). O local abriga ainda estimativas de 133 espécies de plantas, 112 de aves e pelo menos 42 de répteis.
O documento revela que, enquanto populações globais de animais selvagens apresentaram declínio de 73% desde 1970, aquelas em territórios sob proteção da Unesco mantiveram-se estáveis em termos comparativos. Aproximadamente um quarto dessas áreas está localizado em territórios ocupados por povos indígenas, onde são faladas mais de mil línguas.
O relatório intitulado People and Nature in Unesco Sites: Global and Local Contributions (Comunidades e Natureza nos Sítios da Unesco: contribuições locais e globais) analisou, de forma inédita, toda a estrutura de proteção, incluindo Sítios do Patrimônio Mundial, Reservas da Biosfera e Geoparques Mundiais. São mais de 2.260 sítios, abrangendo um total superior a 13 milhões de quilômetros quadrados, área maior que a soma dos territórios da China e da Índia.
De acordo com o diretor-geral da Unesco, Khaled El-Enany, as áreas protegidas geram benefícios concretos para as pessoas e o meio ambiente.
“Nesses territórios, as comunidades prosperam, o patrimônio da humanidade perdura e a biodiversidade é preservada, enquanto se degrada em outros locais. O relatório mensura o valor global e as contribuições desses sítios e revela o que podemos perder se eles não forem priorizados”.
Segundo El-Enany, o relatório representa um chamado urgente para aumentar o nível de ambição dos esforços de proteção e para o reconhecimento dos sítios da Unesco como elementos estratégicos no enfrentamento das mudanças climáticas e da redução da biodiversidade. Ele enfatizou ainda a necessidade de investimentos imediatos para garantir a preservação de ecossistemas, culturas e modos de vida para as futuras gerações.
O estudo da Unesco demonstrou que estas áreas concentram mais de 60% das espécies catalogadas mundialmente, sendo que aproximadamente 40% dessas espécies são exclusivas dessas regiões. Estima-se que esses sítios armazenem em torno de 240 gigatoneladas de carbono, valor que corresponde a quase vinte anos das emissões globais atuais caso houvesse liberação desse carbono. Apenas as florestas localizadas nessas áreas absorvem cerca de 15% do carbono que as florestas de todo o planeta sequestram anualmente.
Ainda assim, o relatório alerta para a pressão crescente enfrentada por esses territórios: quase 90% das áreas monitoradas enfrentam altos níveis de estresse ambiental, e, na última década, os riscos associados ao clima aumentaram em 40%. Mais de 25% dos locais estudados poderão atingir limites críticos até 2050, com consequências irreversíveis. Sem ações mais contundentes, as projeções indicam a possibilidade de desaparecimento de geleiras, colapso de recifes de coral, deslocamento de espécies, intensificação do estresse hídrico e transformação das florestas de sumidouros em fontes de carbono.
Os dados apontam para uma forte relação entre os sítios protegidos e as populações que neles vivem: cerca de 900 milhões de pessoas, o equivalente a 10% da população mundial, residem nessas áreas. Nesses locais, mais de mil línguas são faladas e, em torno de 25% dos territórios, a presença e atuação de povos indígenas é significativa. Na África, Caribe e América Latina, essa participação chega a quase 50%.
O estudo detalhou que aproximadamente 10% do Produto Interno Bruto (PIB) global é proveniente das atividades desenvolvidas nesses territórios e suas zonas adjacentes. O relatório também destacou que a implementação de medidas eficazes no presente pode reduzir consideravelmente os riscos para o futuro: a cada 1 grau Celsius de aquecimento global evitado, o número de sítios expostos a grandes rupturas até o final do século pode ser cortado pela metade.
Esses espaços, segundo o documento, ainda têm potencial pouco aproveitado nas políticas climáticas. Apesar de 80% dos planos nacionais de biodiversidade contemplarem as áreas da Unesco, apenas 5% das políticas nacionais de enfrentamento das mudanças climáticas incorporam esses territórios.
A recomendação central da Unesco é pela intensificação das ações estruturadas em quatro diretrizes prioritárias: restauração de ecossistemas para fortalecer a resiliência ambiental; promoção do desenvolvimento sustentável mediante cooperação internacional; integração efetiva dos sítios da Unesco nos planos climáticos globais; e ampliação da governança participativa, especialmente envolvendo povos indígenas e comunidades locais.
Os dados coletados mostram que as áreas sob a égide da Unesco são exemplos de convivência harmônica entre seres humanos e natureza. Entre as evidências destacadas estão a estabilidade de populações de animais silvestres nessas regiões, mesmo em contraste com o declínio observado globalmente, e resultados positivos em ações de conservação, como a recuperação de gorilas-das-montanhas em zonas afetadas por conflitos armados, evidenciando o potencial de proteção sustentada e participação comunitária.
O relatório contou com a colaboração de mais de 20 instituições de pesquisa internacionais e reforça a necessidade de aumentar o compromisso com a prosperidade conjunta entre humanidade e meio ambiente, reconhecendo os sítios de proteção não apenas como instrumentos de preservação, mas como componentes essenciais no enfrentamento dos desafios socioambientais globais.
“Investir na sua proteção hoje significa salvaguardar, para as gerações futuras, ecossistemas insubstituíveis, culturas vivas e os meios de subsistência de centenas de milhões de pessoas”, conclui o relatório.