As telas da América Latina continuam a ser um palco essencial para o debate sobre os desafios da democracia, a preservação da memória política e as heranças dos regimes autoritários. A constante presença desses temas no cinema da região é um espelho das tensões sociais e políticas ainda existentes, conforme apontam especialistas em ditaduras e em produções cinematográficas.
Esta relevância se manifesta na principal premiação do cinema ibero-americano, o Prêmio Platino, que em sua próxima edição, com vencedores a serem anunciados em 9 de maio, no México, conta com pelo menos três obras que discutem abertamente essas questões. Entre os indicados que trazem à tona regimes autoritários e a democracia, destacam-se produções do Brasil e do Paraguai.
Os filmes brasileiros que participam da competição incluem O Agente Secreto, dirigido pelo pernambucano Kleber Mendonça, que busca o troféu de melhor filme do ano, e o documentário Apocalipse nos Trópicos, da diretora Petra Costa. Somando-se a eles, o Paraguai apresenta o documentário Sob as bandeiras, o Sol, de Juanjo Pereira, que resgata a memória da ditadura militar naquele país.
A obra O Agente Secreto explora o apoio dado pelo empresariado ao regime ditatorial, a perseguição política e o esforço de apagamento da memória sobre a ditadura no Brasil. Por sua vez, o documentário de Petra Costa investiga a influência da religião evangélica no cenário político. O filme paraguaio, de Juanjo Pereira, utiliza imagens raras para reconstituir o período ditatorial em seu país.
Paulo Renato da Silva, professor de História da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), analisou que as populações dos países latino-americanos enfrentam a privação de direitos fundamentais, como acesso à saúde, alimentação e moradia, o que gera insatisfações generalizadas. Ele ressaltou que a democracia é o caminho para atender a essas demandas sociais, ao contrário dos regimes autoritários.
“É a democracia que permite você olhar para essas demandas [por direitos] e, como sociedade, buscar atendê-las”
Regimes autoritários, explicou o professor, costumam privilegiar determinados grupos políticos e econômicos, ao mesmo tempo em que restringem a liberdade de expressão e outras formas de manifestação de oposição. Paulo Renato da Silva é reconhecido como um dos principais pesquisadores da ditadura paraguaia, um regime que recebeu apoio do Brasil em iniciativas como a Operação Condor, mencionada no documentário paraguaio.
A fragilidade democrática na América Latina é considerada “uma pauta não resolvida”, de acordo com Marina Tedesco, professora de cinema da Universidade Federal Fluminense e especialista na cinematografia da região. Ela observou que ainda é comum ver presidentes e figuras políticas importantes defendendo regimes militares ou minimizando a gravidade das violações de direitos humanos e dos casos de corrupção ocorridos durante esses períodos.
Tedesco exemplificou com o presidente Alfredo Stroessner, retratado no filme de Juanjo Pereira, que liderou um regime corrupto e brutal, responsável pela prisão e tortura de mais de 20 mil pessoas. Ela lembrou que Stroessner chegou a ser reverenciado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. No campo do cinema, a democracia sempre foi um tema central, abordado inicialmente de forma clandestina e, posteriormente, por artistas exilados em razão de perseguição política.
“Pelo fato de a discussão incomodar, ainda vemos governos autoritários na América Latina atacando tanto o cinema ─ uma instância onde esses temas ainda são tratados”
Em 2025, o Prêmio Platino já havia reconhecido uma obra que tratava da ditadura brasileira: o filme Ainda Estou Aqui, que narra a perspectiva da família do ex-deputado Rubens Paiva, foi o grande vencedor da premiação.