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Senegal fortalece articulação internacional no Fórum de Dacar

Evento reúne 38 países e destaca Senegal como polo de diálogo, estabilidade e influência no Sul Global

21/04/2026 às 21:27
Por: Redação

A cidade de Dacar, capital do Senegal e localizada a cerca de 2,9 mil quilômetros do território brasileiro, se tornou o principal elo entre a África e as Américas durante a realização do 10º Fórum Internacional de Dacar sobre Paz e Segurança na África. O evento, que ocorreu ao longo de dois dias e foi encerrado em 21 de abril de 2026, reuniu lideranças políticas e representantes de 38 nações, sendo 18 delas africanas, além de membros de dez entidades internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a União Europeia (UE). O Brasil participou por meio da embaixadora Daniella Xavier.

 

Durante a abertura do fórum, o presidente do Senegal, Bassirou Diomaye Faye, afirmou que Dacar se consolida como referência para o diálogo estratégico tanto no continente africano quanto em âmbito global. O chefe de Estado ressaltou o objetivo do encontro ao oferecer um espaço dedicado à reflexão e à troca de experiências, voltado ao desenvolvimento de soluções internas para os desafios de segurança enfrentados pelos países africanos.

 

Além de analisar obstáculos e discutir temas centrais, a reunião anual também projeta o Senegal como ator relevante na busca de protagonismo regional e internacional. Destacado como uma das democracias mais estáveis do continente, o Senegal tem população estimada em 19 milhões de pessoas e se destaca por nunca ter registrado um golpe de Estado em sua história.

 

Encontro destaca estabilidade e integração africana

O diplomata Leonardo Santos Simão, líder do Escritório da ONU para a África Ocidental e Sahel, salientou que o Senegal mantém trajetória de estabilidade política e social. O representante, originário de Moçambique, pontuou que a África enfrenta períodos de instabilidade devido a conflitos internos, tensões regionais, avanço do terrorismo e criminalidade organizada.

 

A faixa do Sahel, que corta o continente entre o deserto do Saara e as regiões de savana ao Sul, é considerada zona crítica do terrorismo internacional, impactada por grupos extremistas islâmicos como o Al-Qaeda e o Estado Islâmico. Conforme o Índice de Terrorismo Global de 2026, o Sahel foi responsável por mais de 50% das mortes provocadas por ataques terroristas no ano anterior, sobretudo nos territórios do Mali, Burkina Faso e Níger. Além desses, também integram a região os países Senegal, Gâmbia, Mauritânia, Guiné, Chade, Camarões e Nigéria.

 

Segundo Leonardo Simão, o Senegal utiliza o fórum para proporcionar espaço permanente de debate sobre estratégias e enfrentamento dos desafios contemporâneos da região, contando inclusive com representantes de países não africanos.

 

Diálogo do Sul Global e busca por autonomia

O representante da ONU ressaltou que o Senegal integra o grupo internacional conhecido como Sul Global, composto por nações em desenvolvimento que partilham desafios sociais. O Brasil, segundo ele, também defende a ampliação do papel dessas nações no cenário internacional.

 

Leonardo Simão explicou que o Sul Global atua como fórum para identificar problemáticas comuns entre os países do hemisfério sul, além de promover interlocução com nações desenvolvidas do chamado Norte Global.

 

“Este Sul está cada vez mais unido”, disse. “Senegal é parte desse esforço também. Está no mesmo diapasão que o Brasil e outros países do Sul no trazer desta voz do Sul Global para que sejam encontradas soluções para os problemas da pobreza e da exclusão”, sustentou.


 

O diplomata declarou que a defesa da soberania nacional é um tema cada vez mais central para os países africanos, afirmando que as nações do Norte precisam revisar velhas práticas de relacionamento internacional, consideradas ultrapassadas pelos países em desenvolvimento.

 

No Fórum de Dacar, participaram delegações de governos europeus cuja história inclui políticas coloniais, como Alemanha, Espanha, Portugal e França. O Senegal foi colônia francesa até o ano de 1960.

 

Estratégias de influência e cooperação

Carlos Lucas Mamboza, professor moçambicano especializado em Estudos Estratégicos, Segurança e Defesa, afirmou que a realização do fórum é uma estratégia de soft power por parte do Senegal. O termo, utilizado na diplomacia, refere-se à capacidade de exercer influência internacional por meio da atração e persuasão, em lugar do uso da força militar ou coerção.

 

O especialista explicou que o Senegal busca fortalecer sua imagem como Estado estável, com instituições sólidas e apto a mediar conflitos tanto no Sahel quanto em toda a África. Direto de Maputo, capital de Moçambique, ele destacou ainda que o tema central do evento, “África enfrenta os desafios da estabilidade, integração e soberania: Quais soluções sustentáveis?”, evidencia o dilema enfrentado por países africanos, que consiste em equilibrar estabilidade interna, integração regional e garantia da soberania diante de competição intensa entre grandes potências mundiais, como China, Rússia e Estados Unidos.

 

“É a necessidade de equilibrar uma estabilidade interna, os processos de integração regional e a preservação da soberania em um cenário internacional marcado por uma intensa competição entre as grandes potências, nomeadamente China, a Rússia e os Estados Unidos”.


 

Segundo Mamboza, o fórum de 2026 amplia a pauta de discussões, abordando temas como mudanças climáticas, pandemias, crimes transnacionais, segurança cibernética e tecnologia. O professor acredita que a iniciativa demonstra o empenho do continente em definir prioridades estratégicas próprias de forma independente.

 

Parcerias com o Brasil e o Atlântico Sul

Carlos Lucas Mamboza enfatizou a aproximação diplomática do Senegal com a América do Sul, destacando a atuação conjunta com o Brasil. O Senegal integra a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas), um agrupamento formado por mais de 20 países — em sua maioria africanos — comprometidos com a manutenção do Atlântico Sul livre de conflitos armados e de disputas geopolíticas.

 

Recentemente, o Brasil assumiu a liderança da Zopacas em evento realizado no Rio de Janeiro, reforçando laços com os países africanos da região.

 

"Senegal emerge como um elo importante entre a África Ocidental e o espaço estratégico do Atlântico Sul, conectando-se diretamente com os interesses do Brasil".


 

O professor afirmou se tratar de uma iniciativa de cooperação Sul-Sul. Ele mencionou a defesa conjunta pelo Brasil e pelos países africanos de reformas na governança global, citando como exemplo o Conselho de Segurança da ONU. Tanto o Brasil quanto diversas nações africanas buscam mudanças no funcionamento do órgão, que atualmente conta apenas com cinco membros permanentes com direito a veto: Rússia, Estados Unidos, China, Reino Unido e França — nenhum deles sul-americano ou africano.

 

Entre as atribuições do Conselho de Segurança estão a imposição de sanções internacionais e a autorização de intervenções militares.

 

Reconhecimento internacional e interesses norte-americanos

A busca senegalesa por protagonismo internacional foi reconhecida pela delegação dos Estados Unidos que participou do fórum. Richard Michaels, subsecretário adjunto do Departamento de Estado norte-americano, destacou o papel de liderança do Senegal em questões de segurança regional e o impacto dessa atuação para o futuro da África.

 

“A liderança do Senegal em questões de segurança regional demonstra o impacto transformador que os países africanos podem alcançar quando traçam seu próprio caminho rumo ao sucesso”, afirmou.


 

O diplomata americano elogiou o novo momento de liderança africana, com países do continente assumindo protagonismo frente aos desafios econômicos, políticos e de segurança. Michaels também informou que os Estados Unidos estão promovendo mudanças significativas na forma de relacionar-se com parceiros africanos, privilegiando relações comerciais vantajosas para ambos os lados, em substituição ao tradicional modelo de ajuda e dependência.

 

Disputa global por minerais estratégicos

Richard Michaels deixou claro o interesse dos Estados Unidos em integrar a cadeia de extração e processamento dos chamados minerais críticos, considerados essenciais para tecnologias modernas, defesa e transição energética.

 

Para o representante norte-americano, a África é o principal campo de disputa pela exploração desses recursos estratégicos.

 

“Estamos trabalhando com parceiros africanos para construir cadeias de suprimentos seguras, transparentes e comercialmente viáveis, que garantam que os países africanos capturem mais valor de seus próprios recursos”, concluiu.


 

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