O programa Caminhos da Reportagem da TV Brasil vai apresentar nesta segunda-feira, dia 27, às 23h, a edição “O boom das canetas emagrecedoras”. O episódio aprofunda a discussão sobre a intensa utilização desses medicamentos no processo de emagrecimento, um assunto que tem gerado vasto debate global na área da saúde.
Desde a chegada da primeira caneta emagrecedora ao Brasil em 2017, novas tecnologias para o tratamento de diabetes e obesidade foram desenvolvidas e se tornaram disponíveis no mercado nacional. Embora esses avanços representem um grande potencial no tratamento de ambas as doenças crônicas, especialistas também observam que eles contribuem para o que chamam de “economia moral da magreza”.
O médico endocrinologista Neuton Dornelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, enfatiza a preferência pelo termo “medicamentos injetáveis para tratamento da obesidade e de diabetes”.
Estamos falando de medicamentos que realmente trouxeram uma revolução no tratamento dessas duas doenças, com resultados na perda de peso e na diminuição de risco cardiovascular.
Dornelas ressalta que esses fármacos são especificamente indicados para indivíduos que vivem com obesidade, diabetes, ou a combinação das duas condições. Ele salienta que a avaliação e prescrição devem ser feitas por um profissional de saúde, seguindo critérios técnicos.
A matéria jornalística apresenta o caso de Francenobre Costa de Sousa, carinhosamente chamada de Nobi por sua família e amigos. Com 58 anos, Nobi convive com diabetes tipo 2, doença diagnosticada quando ela tinha 45 anos, após um episódio de desmaio dentro de um ônibus que a levou ao hospital. Apesar de realizar tratamento com insulina, o controle de seu diabetes permanece um desafio.
Alexandra Padilha, médica de família que acompanha Nobi na Unidade Básica de Saúde (UBS), explica que o tratamento com medicamentos injetáveis poderia ser de grande ajuda para a paciente. A médica avalia que essa intervenção poderia até mesmo reverter a necessidade do uso de insulina, e que Nobi, que possui sobrepeso, poderia alcançar novamente um Índice de Massa Corporal (IMC) considerado normal.
Para que o acesso a esse tipo de tratamento possa superar a barreira da desigualdade social, especialistas apontam fatores cruciais. Entre eles, destacam-se a expiração da patente dos princípios ativos utilizados nos medicamentos e a possibilidade de que esses fármacos sejam produzidos em território nacional.
A patente da semaglutida, substância ativa presente em medicamentos como Ozempic e Wegovy, expirou em 20 de março deste ano. A queda dessa patente é significativa para o mercado, pois permite a concorrência entre fabricantes.
Contudo, Henderson Fust, advogado especializado em Bioética e Regulação da Saúde, adverte que, embora haja uma expectativa de barateamento, este não será “amplo e pleno”.
Mas é preciso pensar que, muito embora vá baratear, não é um amplo e pleno barateamento. A produção da substância, do insumo farmacêutico ativo, é uma produção mais complexa do que os chamados medicamentos genéricos.
O Ministério da Saúde, por meio de uma nota, informou que solicitou à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) prioridade para o registro de medicamentos que utilizam os princípios ativos semaglutida e liraglutida, com o objetivo de viabilizar a produção nacional futura. A pasta detalhou que, em 2025, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), órgão responsável por assessorar as decisões do Ministério da Saúde, emitiu um parecer contrário à incorporação da semaglutida e da liraglutida. O motivo foi o impacto orçamentário projetado, que superaria 8 bilhões de reais, um valor que corresponde ao dobro do orçamento anual do Programa Saúde Popular.
Enquanto as discussões sobre a ampliação do acesso a novos tratamentos para diabetes e obesidade na rede pública progridem, o Brasil vivencia um cenário de “popularização” das canetas emagrecedoras. Essas tecnologias intensificaram o que pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) definem como “economia moral da magreza”.
Fernanda Baeza Scagliuzi, professora das Faculdades de Saúde Pública e de Medicina da USP, explica que um corpo magro é frequentemente associado a uma moralidade de virtude, dando a impressão de que “a pessoa se esforçou para chegar até lá”.
Um corpo gordo é visto como o de alguém que é preguiçoso, que é relaxado, que não tem força de vontade, não tem disciplina e outros estereótipos também muito perigosos. Agora, mesmo as pessoas que não são gordas sofrem a pressão estética pela magreza.
A pesquisadora, que também se dedica ao estudo dos efeitos colaterais resultantes do uso desses medicamentos injetáveis, enfatiza que essa pressão estética pela magreza atinge inclusive pessoas que não são obesas.
A dentista Bárbara Lopes é um exemplo de paciente que utilizou canetas emagrecedoras, mas subsequentemente recuperou o peso. Enfrentando os desafios da perimenopausa, pré-diabetes e ansiedade, ela está atualmente em um novo regime de tratamento. Bárbara relata que, anteriormente, “Eu mudava alimentação, buscava fazer um pouco de exercício e não via aquele quadro mudar”.
Sociedades médicas recomendam que o tratamento farmacológico não seja administrado de forma isolada, mas sim em conjunto com mudanças no estilo de vida. Isso inclui aconselhamento nutricional e o incentivo à prática regular de atividade física.
A médica geriatra Marcela Pandolfi reforça que a medicação não é o único componente do tratamento. Ela destaca a importância fundamental do estilo de vida para o paciente.
O estilo de vida para esse paciente vai ser fundamental. É isso que vai fazer com que ele consiga pelo menos equilibrar, fazer com que ele não volte a ganhar todo o peso que perdeu no processo do tratamento.
O aumento da oferta e da demanda por canetas emagrecedoras tem sido acompanhado por diversas irregularidades em etapas como importação, manipulação, prescrição e dispensação dos medicamentos. Em resposta, a Anvisa intensificou a fiscalização desses produtos, enquanto forças de segurança e a Receita Federal têm investigado crimes contra a saúde pública e a economia nacional relacionados a essa questão.