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Ato inter-religioso reúne fiéis para homenagear São Jorge em Porto Alegre

Celebração integra Igreja Católica e religiões de matriz africana com programação durante todo o dia

22/04/2026 às 20:05
Por: Redação

No dia 23 de abril, a celebração em homenagem a São Jorge, realizada pelo terceiro ano consecutivo no bairro Partenon, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, promoveu uma união de diferentes manifestações religiosas a partir das 8h da manhã.

 

Durante o evento, missas ocorreram no interior da Igreja de São Jorge, enquanto, no lado externo, fiéis receberam bênçãos de representantes de religiões de matriz africana ligados à Família Yecari do Terreiro de Batuque Sociedade Beneficente Cultural Oxum e Oxalá, organização que já atua há mais de duas décadas com ações comunitárias na zona norte da capital gaúcha.

 

No Brasil, São Jorge é venerado na Igreja Católica, enquanto, nas religiões de matriz africana, é sincretizado como Ogum. A figura do santo é associada à coragem e à força dos guerreiros, motivando a mobilização de grande quantidade de devotos em todo o país nos atos de celebração, tanto no catolicismo quanto nas religiões de matriz africana.

 

Roseli Debem Sommer, praticante da religião de matriz africana e integrante da Família Yecari, nasceu em um lar católico, onde foi batizada, fez a primeira comunhão, a crisma e se casou pela Igreja. Sua transição religiosa ocorreu aos 19 anos, mantendo sempre o simbolismo de São Jorge como protetor diante dos desafios.

 

“Minha falecida mãe sempre falava: te agarra no guerreiro, pede com bastante fé e com bastante coração, que tu pode ter certeza que ele vai te ouvir. São as palavras que sempre uso: que o grande guerreiro esteja sempre à frente das nossas batalhas”, disse.

 

Roseli lembrou que atos semelhantes de integração religiosa estão sendo realizados também nas cidades de Rio Pardo e Santa Maria, onde a Família Yecari busca expandir a atuação dos rituais, levando suas práticas para outras regiões, o que considera importante e recompensador.

 

Segundo ela, durante o evento em Porto Alegre, observa-se a presença de pessoas que vão à Igreja Católica prestar homenagem a São Jorge e se deparam com integrantes do terreiro de matriz africana concedendo bênçãos. De acordo com Roseli, milhares de pessoas circulam pelo local ao longo do dia.

 

Celebração coletiva e simbologia da integração

 

A organização do 3º Ato Inter-religioso ficou sob responsabilidade do presidente da Sociedade Beneficente Cultural Oxum e Oxalá, Pai Ricardo de Oxum, da Família Yecari e do padre Sérgio Belmonte, pároco da Igreja de São Jorge. O sacerdote do Terreiro de Batuque ressaltou que a celebração representa resistência e o enfrentamento das dificuldades históricas para a livre expressão da fé de matriz africana.

 

“Só conseguiam professar a fé através das imagens da igreja católica [sincretismo]. Então, com São Jorge e todas as imagens dos santos, a gente tenta passar o simbolismo da matriz africana. São Jorge, Ogum e Nossa Senhora dos Navegantes, Iemanjá, são os santos mais populares do Brasil”, afirmou Pai Ricardo.

 

O ato inter-religioso propôs convidar tanto a comunidade de matriz africana quanto simpatizantes para vivenciarem junto aos católicos um dia voltado à conexão espiritual e à celebração coletiva, promovendo integração entre diferentes tradições e respeito mútuo entre as crenças. Pai Ricardo destacou que, conforme o último censo, o Rio Grande do Sul figura como o estado brasileiro com maior número de praticantes de religiões de matriz africana.

 

Pai Ricardo pontuou ainda que o Rio Grande do Sul é historicamente "muito racista" e que católicos costumavam ter uma "visão distorcida" sobre as religiões de matriz africana. Ele ressaltou que, ao longo dos últimos três anos, a Família Yecari tem buscado romper essas barreiras e mostrar que ambas as comemorações podem coexistir. Segundo ele, São Jorge e Ogum são reverenciados internacionalmente, e a tradição brasileira contempla a devoção simultânea a ambos.

 

A programação desse evento inter-religioso teve início com o chamado banho de cheiro promovido pela Família Yecari e se estendeu até as 18h30. Entre as atrações, houve procissão ao redor da Igreja, lavagem das escadarias da Paróquia São Jorge e um ritual simbólico voltado à purificação e à renovação das energias dos participantes.

 

Práticas e origens do Batuque no Rio Grande do Sul

 

A religião do Batuque, praticada no Rio Grande do Sul e de origem africana, estabelece o culto aos orixás como Oxalá, Bará, Ogum, Iansã, Xangô, Oba, Odé/Otim, Ossanha, Xapanã, Oxum e Iemanjá, com raízes nos povos da Guiné, Benin e Nigéria. Diferente de outras religiões afro-brasileiras, como umbanda e candomblé, o Batuque possui características próprias de rituais e práticas.

 

Atualmente, a Família Yecari reúne mais de 50 mil integrantes distribuídos pelo Brasil e em países da América Latina, consolidando sua atuação não apenas em atividades religiosas mas também em iniciativas culturais e sociais na região.

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