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Uso irregular de canetas emagrecedoras gera riscos e mobiliza Anvisa

Autoridades de saúde e especialistas alertam sobre perigos do mercado paralelo e reforçam a importância da prescrição e acompanhamento médico.

26/04/2026 às 13:48
Por: Redação

A diretoria-colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) está em processo de discussão, nesta semana, para estabelecer uma instrução normativa que definirá os procedimentos e requisitos técnicos relacionados aos medicamentos classificados como agonistas do receptor GLP 1, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras.

 

A disseminação ampla desses dispositivos, que contêm princípios ativos como semaglutida, tirzepatida e liraglutida, impulsionou um aumento no uso indiscriminado e na expansão do mercado ilegal. Atualmente, a aquisição desses fármacos é permitida somente mediante apresentação de receita médica.

 

Devido aos potenciais perigos à saúde pública, a Anvisa tem implementado uma série de ações para coibir o comércio ilícito, que inclui a venda de versões manipuladas sem a devida autorização. A agência também criou grupos de trabalho dedicados a oferecer suporte à sua atuação no controle sanitário e a assegurar a segurança dos pacientes.

 

Neste mesmo mês, uma carta de intenção foi assinada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), o Conselho Federal de Odontologia (CFO) e o Conselho Federal de Farmácia (CFF), em colaboração com a própria Anvisa. O documento visa a promover o uso racional e seguro das canetas emagrecedoras.

 

A finalidade dessa iniciativa é prevenir os riscos sanitários associados a produtos e práticas irregulares, salvaguardando a saúde da população brasileira.

 

“A Anvisa e os conselhos propõem uma atuação conjunta baseada em troca de informações, no alinhamento técnico e em ações educativas”, informou a agência.

 

Em entrevista concedida à Agência Brasil, Neuton Dornelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), avaliou que o emprego das canetas emagrecedoras no tratamento da obesidade e do diabetes representa uma verdadeira revolução. Contudo, ele manifestou preocupação com o uso indiscriminado desses medicamentos.

 

“São medicamentos muito bons, eficazes, potentes, que abriram realmente um grande horizonte para o tratamento, sobretudo para pessoas que vivem com obesidade. São medicamentos que revolucionaram sob essa perspectiva. Tudo o que a gente já teve pra tratar obesidade tinha resultado menos potente, menos eficaz e eu diria até menos seguro.”

 

“Pra quem vive com uma doença que é crônica, ter a promessa, a expectativa, a esperança de um tratamento, a longo prazo que seja, mas que funcione abriu um horizonte. Esses medicamentos são importantes, ajudam muito não apenas na perda de peso e no controle da glicose, mas, sobretudo, para diminuir o risco cardiovascular”, completou.

 

Dornelas destacou um levantamento recente conduzido pela Anvisa, o qual indicou que a importação de insumos farmacêuticos destinados à manipulação de canetas emagrecedoras tem se mostrado incompatível com as necessidades do mercado nacional. Os dados revelaram que, apenas no segundo semestre de 2025, foram importados mais de 100 quilos de insumos, quantidade suficiente para a preparação de aproximadamente 20 milhões de doses.

 

Ele também ressaltou as apreensões realizadas, mencionando que “Quando se fala em 20 milhões de doses, é um número chamativo, mas mais do que isso: eles apreenderam 1,3 milhão de medicamentos por algum grau de ilegalidade ou irregularidade, seja pelo transporte, pelo armazenamento”.

 

“Isso é estarrecedor. É assustador. A Sbem já vem alertando há muito tempo sobre isso. Para que as pessoas não consumam medicamentos de fontes que não são legais, medicamentos que não são registrados. Isso é altamente preocupante. Além disso, ter uma medicação que é aprovada para duas doenças crônicas, diabetes e obesidade, e as pessoas usarem de maneira indiscriminada realmente é condenatório.”

 

Combate à manipulação irregular

 

Dornelas ainda salientou seu apoio, em conjunto com outras entidades, à decisão da Anvisa que estabeleceu a retenção obrigatória das receitas de canetas emagrecedoras por farmácias e drogarias, implementada desde junho do ano passado. Ele observou que o “consumo desenfreado” desses medicamentos tem sua origem predominantemente no mercado paralelo.

 

“Hoje, diante desse boom, desse exagero que estamos vendo, talvez valesse a pena a Anvisa bloquear por três meses, por seis meses ou até por um ano qualquer manipulação de qualquer uma dessas drogas injetáveis para o tratamento da obesidade”, defendeu.

 

“Não se tem estrutura, na agência, suficiente para fiscalizar e fazer tudo isso com um volume de 20 milhões de doses. Então, num ponto crítico como esse, eu defenderia o bloqueio da manipulação, nem que seja por um período transitório, até que se tenha outras medidas mais cabíveis pra isso.”

 

Mecanismos de ação e riscos à saúde

 

Ao explicar os benefícios das canetas emagrecedoras para pacientes com obesidade e diabetes, o médico detalhou que os medicamentos operam por meio de três mecanismos principais: auxiliam no controle da glicose; atrasam o esvaziamento do estômago, promovendo uma sensação de saciedade prolongada; e atuam no cérebro, reduzindo o apetite através do aumento da saciedade.

 

Esses efeitos resultam em uma menor ingestão de alimentos e, por meio de processos fisiológicos e da interação com diversos hormônios, estimulam uma perda de peso considerável. A semaglutida, por exemplo, alcança uma média de 15% de redução de peso, enquanto a tirzepatida pode levar a uma diminuição de 22% a 25%, com variações que dependem do indivíduo, da dosagem, do acompanhamento profissional e da adesão a outras medidas, como mudanças no estilo de vida e melhorias na alimentação.

 

Dornelas enfatizou que todos os medicamentos podem provocar efeitos colaterais. No caso das canetas emagrecedoras, os sintomas mais comuns incluem náuseas, vômitos e outros distúrbios gastrointestinais.

 

“Com o uso indiscriminado, comprando de fontes não seguras medicamentos não bem armazenados ou transportados, esses riscos aumentam muito”.

 

A Anvisa começou a documentar efeitos adversos mais severos, como a pancreatite. Médicos que avaliam a condição sabem que a pancreatite já é uma doença infelizmente comum no Brasil, registrando cerca de 40 mil internações anuais, e é tipicamente causada por consumo excessivo de bebidas alcoólicas ou pela presença de cálculos na vesícula biliar.

 

“Esses medicamentos, por si só, quando se faz o retardo do esvaziamento gástrico, eles promovem uma maior parada do líquido que fica dentro da vesícula biliar. E o fato desse líquido, utilizado no processo da digestão, ficar mais tempo parado dentro vesícula pode facilitar a formação de cálculos. Isso poderia aumentar o risco, para algumas pessoas, de pancreatite. Esse é o maior risco hoje.”

 

Quatro pilares da segurança

 

O presidente da Sbem também delineou os quatro pilares essenciais para o uso seguro e responsável de medicamentos, de acordo com a prática médica:

 

O primeiro pilar é utilizar um produtor seguro e legal, com registro no Brasil;

 

O segundo pilar é ter a prescrição de um médico com registro e que faça, inclusive, o acompanhamento adequado, desde o diagnóstico;

 

O terceiro pilar é saber quem está vendendo, preferencialmente farmácias e drogarias em que a compra possa ser feita com segurança;

 

O quarto pilar é usar doses corretas, seguindo a orientação médica, além de nunca comprar em mercados paralelos.

 

Ele esclareceu que a ocorrência de efeitos colaterais não é universal. Náuseas, por exemplo, podem se manifestar em 30% a 40% dos casos, mas não são uma ocorrência garantida. Portanto, a ausência de efeitos colaterais durante o uso da medicação é um indicativo positivo e não significa que o tratamento não esteja fazendo efeito, já que entre 60% e 70% das pessoas não relatam sintomas.

 

“Mas náuseas mais intensas, vômitos e, principalmente, dor abdominal importante que não melhora – a dor é o sinal de alerta. Se há dor importante na parte superior do abdômen, temos que pensar na possibilidade, ainda que rara, de uma pancreatite. A dor é o mais preocupante”, concluiu.

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