Há 66 anos, durante o discurso inaugural da nova capital, Juscelino Kubitschek expressou a dificuldade de traduzir em palavras o que sentia naquele momento decisivo de sua trajetória pública. Décadas depois, diferentes artistas seguem buscando maneiras de captar e transmitir a essência de Brasília sem recorrer ao texto escrito, valendo-se de outras formas de expressão para representar a complexa identidade da cidade.
Entre esses criadores está Miqueias Paz, mímico de 62 anos que utiliza o corpo e o silêncio para traduzir nuances do cotidiano brasiliense. Ele chegou à capital ainda criança, aos cinco anos, acompanhado da família, e teve seu primeiro contato com o teatro durante a adolescência. O palco tornou-se para Miqueias um espaço de reflexão social, abordando experiências de moradores das periferias e de imigrantes que escolheram Brasília para viver.
Ao encenar "Sonho de um retirante" e, posteriormente, "História do homem", ambos na década de 1980, Miqueias lembra do contexto político da época, quando apresentações eram realizadas diante de agentes da ditadura, responsáveis por censurar e classificar espetáculos.
Em Taguatinga, a partir dos 16 anos, iniciou-se no teatro sob influência de grupos visitantes como o H-Papanatas. Mais tarde, passou a apresentar-se não apenas em palcos, mas também nas ruas, levando sua arte a ocupações e promovendo a conscientização sobre direitos por meio da mímica, sem recorrer à fala, apenas transmitindo sentimentos e situações com o olhar.
Miqueias relata que a escolha pela expressão física o tornou alvo de abordagens policiais frequentes, caracterizadas por microviolências. "Eu já começava a fazer mímica intuitivamente a partir das minhas histórias sociais: as coisas que eu vivia, que eu sentia, o ônibus apertado, a falta de grana. Esse passou a ser um eixo do meu trabalho", recorda.
Em 1984, Miqueias ganhou notoriedade ao celebrar o fim da ditadura realizando o gesto de um coração na rampa do Congresso Nacional. Esse ato aumentou sua visibilidade junto a movimentos sociais e sindicatos. Atualmente, ele se dedica ao próprio espaço cultural, o Teatro Mimo, localizado na comunidade 26 de Setembro, região periférica de Brasília, com o objetivo de receber e apoiar artistas ambulantes da cidade.
O processo de tradução artística da capital federal também se manifesta no grupo "Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro", criado pelo pernambucano Tico Magalhães. O músico, ao se deparar com o Cerrado e com a história única de Brasília, idealizou o ritmo "samba pisado". Segundo Tico, a proposta era estabelecer uma tradição inventada para a cidade, criando uma brincadeira própria para o contexto brasiliense.
O samba pisado desenvolvido por Tico apresenta elementos de uma mitologia própria, com novas personagens e festas, além de uma batida singular. "Achei que precisava criar algo que fosse novo também em relação a um pulso, um coração, uma batida própria. A gente chama de samba pisado e, a partir daí, a gente começa a tocá-lo", explica Magalhães.
O ritmo mistura influências do cavalo-marinho, do maracatu nação, do baque solto e baque virado, além de incorporar outros estilos populares. Tico destaca que a região de Brasília foi formada no encontro de diversos povos indígenas e, por isso, guarda uma diversidade de memórias e encantamentos. Para ele, Brasília é "uma cidade que é sonhada, pensada e inventada".
Magalhães avalia que o grupo assume traços da própria cidade e também contribui com novas identidades. "Quando você junta gente de muito lugar, a cidade começa a apresentar suas próprias tradições. O Seu Estrelo carrega a junção de tanta gente. A cidade inventa a gente e a gente inventa a cidade".
O fascínio de Brasília também serve de inspiração para estilistas que cresceram em áreas periféricas da capital. Mackenzo, nascido em Samambaia e atualmente com 27 anos, e Felipe Manzoli, de 29 anos, natural de Planaltina, criaram uma relação íntima entre arquitetura e moda, transformando referências dos espaços urbanos da cidade em peças de roupa.
Felipe aprendeu a costurar com a avó aos dez anos, enquanto Mackenzo, com passagem pela música, se dedicava a desenhos arrojados inspirados pelas paisagens vistas da janela do ônibus. Mackenzo menciona o envolvimento de suas tias, baianas que trabalharam com Juscelino Kubitschek durante a construção da cidade, como fonte de inspiração para a paixão pela arquitetura.
Segundo os estilistas, criar uma peça de roupa exige domínio de saberes similares aos da arquitetura, considerando tanto superfícies planas quanto curvas. "O terreno, que é o corpo, é essa parte da engenharia da peça. Porque Brasília, para mim, não é apenas essa arquitetura. Ela é quase mítica", afirma Mackenzo.
A dupla considera que o trabalho desenvolvido homenageia suas famílias. "Quando a gente pega Brasília para produzir uma coleção ou se inspira nessas questões arquitetônicas para produzir outras coleções, eu me inspiro muito nesse sonho grandioso. A realidade foi realmente dura de quem construiu esse sonho", ressaltam.
Para eles, as roupas também resgatam símbolos democráticos ligados ao centro de decisões, aos protestos e à efervescência cultural de Brasília. "Nós somos muito metódicos e dramáticos. Eu sempre penso como é que eu posso transformar as coisas em roupas".
Nara Resende, estilista e arquiteta de 54 anos, atribui à cidade e à formação acadêmica a base de seu processo criativo. Ela relata que formas simples e a presença marcante da geometria sempre influenciaram o desenvolvimento do seu repertório. "Estar hoje em Brasília, com a minha marca, só reforça o quanto esse repertório foi construído a partir dessas bases", comenta.
Nara observa que Brasília é um ambiente em que a arte se faz presente e a natureza contrasta com o brutalismo arquitetônico das edificações. "Isso me atravessa diretamente. Minha inspiração acontece muito nas ruas, onde a vida pulsa e as pessoas circulam".
Isabella Stephan, artista visual de 41 anos, dedica-se a obras em tela e à estamparia, inspirando-se nas cores que, segundo ela, definem a "alma da cidade". Sua produção transita entre o figurativo e o abstrato, exaltando a alegria como tema central de sua arte.
Inicialmente, Isabella se dedicava à pintura de quadros, que, ao serem vendidos, inspiraram a artista a levar suas criações ao universo do vestuário. Para ela, apesar do domínio do branco e do concreto na arquitetura, Brasília é uma cidade cheia de linhas e movimentos. Em suas obras, a artista busca valorizar o colorido das manifestações e a alegria dos moradores da capital federal.